Espaço Público e Cidade Contemporânea

A avaliação da cidade, como entidade em permanente evolução, assim como a sua designação, têm definido posições e estabelecido divergências profundas entre os que lhe procuram um termo que a caracterize inequivocamente, e os que continuam a designá-la como cidade, apesar de lhe confirmarem as transformações formais, sociais, antropológicas e urbanas que a descaracterizaram como entidade historicamente reconhecível.

Uma das características da realidade actual reside precisamente nas novas formas de ocupação do território disponível, através de um somatório de artefactos urbanos, que se fundamentam essencialmente em prioridades económicas, justificadas, também, pela urgência de se resolver o problema permanente da habitação.

 

As premissas situam-se para além de qualquer ideia geral de cidade e ao sabor de múltiplas conveniências, ditadas pelos valores da mobilidade e do tempo, e concretizadas num território que se utiliza como vazio expectante.

 

Estamos, então, perante uma cidade que se expande indiferente às particularidades geográficas e às condições físicas do território, e que se constrói como resposta, muitas vezes eficaz, a programas ditados pela descentralização acelerada da habitação, da indústria ou do comércio, paralelamente ao crescimento exponencial de uma estrutura viária diversificada e omnipresente.

 

É evidente que a cidade nunca cresceu tanto como no último século, que o progresso técnico-científico, o desenvolvimento da informática e dos meios de comunicação alteraram consideravelmente o nosso dia-a-dia. Mas a cidade como arquitectura, na sua imanente estrutura física, poderá ser secundarizada pelo conjunto dos novos sistemas telemáticos, por uma “cidade virtual” que nega o texto urbano e não permite ler na cidade a capacidade descritiva da sua forma urbana? Na verdade, o que se manifesta é a incapacidade de se processar uma análise morfológica da cidade contemporânea que se desenvolva como base para o entendimento disciplinar do seu crescimento, e que perspective uma reordenação dos diferentes fragmentos expansivos.

 

Num tempo, os arquitectos começavam os seus projectos analisando e explorando as particularidades geográficas do território para o poderem transformar em continuidade, garantindo para um sítio específico um projecto determinado.

 

Hoje, a condição contemporânea de infinitude da cidade e a produção de tipologias atópicas que se instalam pelo território criarão uma estética urbana alternativa àquela que se constituía na geografia, na história e na memória?

 

Será que a produção arquitectónica se homogeneíza, já não em função de uma racionalização da construção, da tecnologia e da artisticidade (objectivos tão caros aos defensores de um estilo internacional), mas como reprodução de imagens de sucesso que a comunicação exalta e celebra?

 

MPS

Será que a divulgação eficaz de modelos arquitectónicos e a sua fácil reprodutibilidade conduzirá a uma homogeneização das formas de crescimento da cidade, imagem de uma globalização e, também, a uma eventual fractura formal entre as duas condições urbanas contemporâneas: a do mundo da cidade e a do urbano generalizado?

 

O espaço público como elemento qualificador e referencial de uma identidade urbana colectiva, não se revestindo de uma função pública, estará condenado à sua substituição progressiva pelas novas tecnologias de comunicação telemática? Na sociedade contemporânea, com o uso exponencial de informação e de comunicação, será que o limite físico entre esfera pública e esfera privada se altera e cria os seus próprios conceitos de privado e de público?

 

Não estará o espaço público da cidade ainda ligado um certo conceito de permanência, de singularidade e de autonomia formal no tecido urbano, que o particularize como lugar de desempenho colectivo e de condição pública, significados urbanos indispensáveis para uma sociedade que se deseja igualitária, e que pode ter no espaço público o lugar da sua manifestação democrática?

 

A cidade contemporânea, à medida que vai crescendo, vai clivando duas cenografias urbanas, que outrora sempre estiveram em diálogo e sempre se configuraram reciprocamente: as arquitecturas e os espaços públicos. Para além desta ruptura evidente, o processo de crescimento da cidade actual projecta, frequentemente, o espaço público, depois da produção arquitectónica das suas edificações.

 

Será que a preocupação com o cheio em detrimento do vazio, contribui para um novo desempenho do espaço público urbano na forma da cidade contemporânea?

 

Quando Bernardo Secchi afirma que a imagem da cidade contemporânea já existe mas que está à espera de um projecto, sublinha a necessidade urgente de, perante as novas realidades complexas da sociedade contemporânea, se projectarem as formas que configurem a cidade como organismo.

Haverá algum tipo de ordem por detrás desta desordem aparente da cidade de hoje, ou, mais correctamente, poder-se-á estabelecer novos princípios urbanos que permitam uma ordem na forma da cidade contemporânea?

 

Como afirma Carlos Martí “A dificuldade que experimentamos ao tratar de definir os lugares públicos próprios da cultura actual, deve-se à nossa incerteza sobre o que é ou deve ser a cidade contemporânea. É necessário, se possível, clarificar essa nova ideia de cidade para avançar na definição dos lugares públicos que lhe correspondem. Em realidade, trata-se do mesmo problema enunciado de maneira distinta: repensar o carácter, a posição e a forma dos novos lugares públicos é, entre outras coisas, o que nos permitirá avançar no conhecimento da cidade contemporânea. Assim será, porque a presença de lugares públicos é uma das particularidades que caracterizam a cidade, agora e sempre.”